O Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos (PPGCTAL) da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – Campus Laranjeiras do Sul recebeu seu primeiro estudante estrangeiro. Natural de Moçambique, John Patrick Marcos M’Pokassye ingressou no mestrado com o objetivo de aprofundar seus conhecimentos na área e desenvolver uma pesquisa que aproxima a ciência de uma tradição alimentar de seu país de origem.
O interesse de John pela UFFS surgiu quando procurava oportunidades para dar continuidade aos estudos na área de Ciência e Tecnologia de Alimentos, preferencialmente fora de seu país. A escolha pelo PPGCTAL foi motivada, entre outros fatores, pela “oportunidade de poder aprimorar, conciliar, integrar e transformar os meus conhecimentos de agronomia, segurança alimentar, desenvolvimento comunitário e extensão, em uma ferramenta de soluções na área da bromatologia”, relata.
A proposta de pesquisa do estudante envolve o desenvolvimento de uma bebida fermentada funcional, naturalmente isenta de glúten, à base de sorgo granífero. A bebida é inspirada em uma cerveja tradicional Moçambicana chamada Otheka, produzida à base de mapira (nome pelo qual o sorgo é conhecido em Moçambique) e farinha de mandioca seca.
A bebida tem importância cultural e alimentar para o povo Macua (ou Makuwa), especialmente na província de Nampula, no norte de Moçambique, onde a Otheka tem origem e é considerada um patrimônio alimentar tradicional. Ao levar esse conhecimento para o ambiente acadêmico, o estudante pretende contribuir para a valorização de culturas agrícolas locais e para o desenvolvimento de alternativas alimentares.
Trazer uma bebida tradicional de seu país para o laboratório de uma universidade brasileira e transformá-la em objeto de pesquisa científica vai além dos aspectos técnicos do estudo. Para John, a experiência envolve uma grande responsabilidade por se tratar de uma bebida que faz parte da tradição alimentar moçambicana, resultado de um conhecimento transmitido entre gerações.
Para John, a pesquisa também representa uma oportunidade de contribuir para a diversificação de bebidas fermentadas não lácteas, impulsionar o aproveitamento tecnológico de matérias-primas vegetais alternativas, promover a valorização de culturas agrícolas tropicais locais, como o sorgo, e favorecer a transferência de tecnologias para o setor produtivo.
“Por meio da formação, pretendo desenvolver competências para valorizar ainda mais as culturas agrícolas tropicais nativas de Moçambique e suas matérias-primas, transformando-as em produtos alimentares saudáveis, seguros e diversificados, capazes de atender às necessidades de diferentes segmentos da população e estratos sociais do mercado consumidor”, explica.
Sobre as expectativas ao fim do mestrado, John espera levar para Moçambique novos conhecimentos científicos e tecnológicos que possam ser aplicados no desenvolvimento de produtos alimentares e contribuir para a segurança alimentar. “Espero adquirir conhecimentos e experiências que possam ser transformados em soluções para o contexto moçambicano e construir uma experiência rica em conhecimentos, valores e aprendizagens, que possam ser aplicados, multiplicados e compartilhados”, afirma.
Etapas da pesquisa
Orientada pelo professor Luciano Tormen, a pesquisa contempla diferentes etapas, desde o estudo da germinação das sementes de sorgo até o desenvolvimento e a caracterização da bebida fermentada. Entre os aspectos inovadores da proposta está o uso de um hormônio vegetal no processo de malteação do sorgo.
“Entre os aspectos científicos investigados estão a fisiologia vegetal e a bioquímica da germinação de sementes de sorgo granífero, a obtenção de extratos vegetais hidrossolúveis e a extração de proteínas. Além disso, serão contemplados os processos fermentativos, a otimização da formulação, a caracterização química da bebida, a determinação do perfil aromático por cromatografia a gás e a análise de digestibilidade in vitro”, destaca o docente.
Para Tormen, a pesquisa tem relevância para a segurança alimentar e para a promoção da resiliência climática, especialmente pelo uso do sorgo, uma cultura agrícola rústica. “O trabalho contribui para a diversificação de bebidas fermentadas não lácteas, impulsiona o aproveitamento tecnológico de proteínas vegetais alternativas, favorece a valorização de frutas tropicais locais e viabiliza a transferência de tecnologia para o setor produtivo”, afirma.
Internacionalização do PPGCTAL
Para a professora Luisa Helena Cazarolli, coordenadora do PPGCTAL, a chegada do primeiro estudante estrangeiro representa um avanço na internacionalização do programa.
“A recepção do primeiro estudante estrangeiro no PPG representa a consolidação da proposta de internacionalização do programa. Além disso, demonstra que o corpo docente e a infraestrutura possuem capacidade de atração e relevância internacional. Outro fator importante é a diversificação cultural, integrando novos olhares e diferentes contextos e realidades socioeconômicas no desenvolvimento de pesquisas em ciência e tecnologia de alimentos”, destaca.
A coordenadora também ressalta que a experiência amplia a visibilidade internacional do PPGCTAL e abre possibilidades para a formalização de convênios e parcerias com universidades estrangeiras, a publicação conjunta de artigos científicos de artigos científicos de maior impacto internacional e a atração de novos estudantes estrangeiros.