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Pesquisa no Campus Cerro Largo revela novos ambientes utilizados por peixes migradores

Estudo mostra que rios menores e arroios também são importantes para o desenvolvimento de peixes juvenis. Resultados integram novo livro publicado pela editora Springer, uma das principais editoras científicas do mundo.

ASCOM-CL — 08 de Outubro de 2026 — Atualizado em 08/10/2026

Pesquisa no Campus Cerro Largo revela novos ambientes utilizados por peixes migradores

Pesquisa desenvolvida na Universidade Federal da Fronteira Sul – Campus Cerro Largo amplia o conhecimento científico sobre os ambientes utilizados por peixes migradores durante as primeiras fases de vida na bacia do rio Uruguai. Além das áreas de planície, onde esses peixes são frequentemente encontrados, juvenis também foram identificados em rios menores e arroios, indicando uma maior amplitude de utilização do espaço ao longo da bacia.

O trabalho tem como primeiro autor o pesquisador David Augusto Reynalte-Tataje e reúne informações produzidas em diferentes estudos sobre a comunidade de peixes do rio Uruguai. Professor do curso de Ciências Biológicas da UFFS – Campus Cerro Largo, Tataje também integra o corpo docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Tecnologias Sustentáveis (PPGATS), onde desenvolve atividades de ensino e pesquisa relacionadas à área ambiental.


Os resultados da pesquisa estão reunidos no capítulo “Exploring the Spatial Distribution of Juvenile Migratory Fish in the Uruguay River” (Explorando a distribuição espacial de peixes migradores juvenis no rio Uruguai, em tradução livre), publicado em um novo livro da editora científica Springer, Neotropical Ecosystem Change as Temporal and Spatiotemporal Gradients (Mudanças nos ecossistemas neotropicais ao longo de gradientes temporais e espaço-temporais, em tradução livre).


Uma lacuna no conhecimento sobre o rio Uruguai


Para entender a dimensão do estudo, é preciso voltar ao início da trajetória que levou à publicação. Desde 2014, quando ingressou na UFFS, o professor David vem acompanhando pesquisas sobre a comunidade de peixes do rio Uruguai. Ao longo desse período, diferentes trabalhos foram produzidos com a participação de estudantes de graduação e de mestrado. São pesquisas que respondem a perguntas específicas. Reunidas, porém, permitem observar a distribuição dos peixes migradores de maneira mais ampla.


Foi esse movimento de reunir informações produzidas ao longo de todos estes anos que deu origem à publicação. Segundo David, “o trabalho pode ser um dos primeiros capítulos de livro da literatura a sistematizar informações sobre onde são encontrados os juvenis de espécies migradoras no rio Uruguai. Anteriormente, já havia informações sobre a distribuição dos peixes adultos e estudos envolvendo as formas larvais. Em relação aos juvenis, porém, havia uma lacuna, em parte pela dificuldade de captura e pela ausência de uma metodologia específica para essa fase. Para produzir a síntese, os pesquisadores reuniram resultados de diferentes estudos e conseguiram mapear a distribuição dos juvenis nos três trechos do rio Uruguai: alto, médio e baixo”.


Seguindo os peixes pelo rio


Os peixes migradores possuem uma característica que ajuda a compreender a importância desse mapeamento: eles utilizam áreas de vida que podem se estender por centenas de quilômetros. O local de reprodução pode estar distante das áreas utilizadas para crescimento e alimentação. Por isso, alterações que interrompam a conectividade do rio podem afetar diferentes etapas do ciclo de vida dessas espécies. Na região, os peixes migradores também são, em geral, espécies de grande porte e importantes para a pesca.


Em outras grandes bacias hidrográficas, como as dos rios Amazonas e Paraná, estudos indicam uma forte relação dos peixes migradores com áreas de planície, regiões mais baixas das bacias. No rio Uruguai, os pesquisadores também encontraram juvenis nesses ambientes, principalmente a partir da região de São Borja, abrangendo áreas do Brasil e do Uruguai. Mas os registros ao longo da bacia revelaram outro aspecto. Os juvenis não estavam somente nas áreas de planície. Eles também apareciam nos tributários (rios menores que deságuam no rio Uruguai) e nos arroios. Segundo David, “o resultado demonstra que essas espécies apresentam, na bacia do rio Uruguai, uma maior amplitude de exploração espacial”.


Um rio, diferentes ambientes


A diversidade de ambientes do rio Uruguai ajuda a compreender esse resultado. Diferentemente de outras grandes bacias, como a do Paraná, o rio Uruguai possui uma área de planície menor. Essa característica pode contribuir para a presença dos juvenis também em outros ambientes, como os pequenos tributários. Além disso, o rio apresenta formas e características geográficas diferentes entre seus trechos alto, médio e baixo. No alto Uruguai, que divide Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o curso é mais encaixado e estreito, geralmente com largura inferior a 250 metros. Os tributários dessa região também são menores e apresentam muitos acidentes geográficos. Nos trechos médio e baixo, o rio Uruguai se torna mais largo e os tributários apresentam outras características. Para o pesquisador, essa diversidade de ambientes é uma característica marcante da bacia. Conhecer esses diferentes ambientes permite ampliar a compreensão sobre o ciclo de vida dos peixes migradores. Identificar onde os juvenis estão presentes é especialmente importante porque essa fase era menos conhecida, antes da pesquisa.


Uma pesquisa construída ao longo dos anos


O capítulo reúne resultados de trabalhos realizados desde 2014, quando Reynalte-Tataje ingressou na UFFS, incluindo dados produzidos por estudantes de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e de mestrado. Para chegar aos resultados, os pesquisadores também precisaram combinar diferentes estratégias de coleta. Como não existe uma metodologia específica para a captura de juvenis, foram utilizadas técnicas empregadas para larvas e para peixes adultos. Assim, a nova publicação editora Springer também sintetiza uma trajetória de pesquisa construída no Campus Cerro Largo, com a participação de diferentes pesquisadores, estudantes e pescadores locais. Essa trajetória se relaciona diretamente com a formação oferecida pela UFFS na área. David atua no curso de Ciências Biológicas e no Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Tecnologias Sustentáveis (PPGATS), ambos vinculados ao Campus Cerro Largo. Nesse percurso, a pesquisa sobre os peixes do rio Uruguai também se transforma em espaço de formação acadêmica.


Conhecer para conservar


Saber onde os juvenis estão presentes contribui para compreender uma etapa importante do ciclo de vida das espécies e identificar as condições ambientais associadas ao seu desenvolvimento. Entre os ambientes identificados estão áreas de planície, foz de tributários e alguns arroios. Segundo David, conhecer esses locais permite ampliar as possibilidades de conservação e indica que determinados ambientes não devem sofrer fragmentação. A fragmentação pode interromper os deslocamentos necessários ao longo do ciclo de vida dos peixes migradores. Uma espécie pode utilizar diferentes ambientes para suas fases de desenvolvimento, crescimento e reprodução. A poluição também representa uma ameaça, inclusive nos tributários e arroios identificados como importantes para o recrutamento. Nesse sentido, os resultados ampliam a discussão sobre conservação para além dos locais tradicionalmente associados à reprodução. Para o pesquisador, o conhecimento produzido pode ser especialmente relevante para gestores de bacia ao evidenciar a importância de preservar a integridade de todo o sistema. “Este capítulo de livro mostra-nos que, na verdade, os peixes precisam que toda a área da bacia seja preservada, porque se começarmos a fragmentá-la, alguma fases de vida destas espécies será impactada”, afirma.


Do Campus Cerro Largo para uma publicação internacional


A participação no livro publicado pela Springer surgiu a partir da rede de pesquisadores com a qual David trabalha. Outros investigadores foram convidados para participar da obra e indicaram o nome do professor para abordar a bacia do rio Uruguai. Posteriormente, a Springer entrou em contato com o pesquisador. Para David, a publicação representa também o reconhecimento do trabalho desenvolvido na universidade por estudantes, técnicos e professores que atuam na área de ictiofauna (estudo de peixes). A publicação conecta, assim, diferentes dimensões da atuação acadêmica do Campus Cerro Largo: a formação de estudantes no curso de Ciências Biológicas, a pesquisa desenvolvida na pós-graduação, a produção científica construída a partir da realidade regional e a circulação desse conhecimento em uma publicação internacional. E o percurso iniciado com diferentes estudos sobre os peixes do rio Uruguai retorna à questão que motiva a própria pesquisa: compreender  os ambientes utilizados por essas espécies para contribuir com sua conservação. Para  Tataje, “a conservação dos peixes migradores depende da integridade da bacia. Temos de cuidar dela como um todo, para que estas espécies possam estar presentes não apenas para nós, mas também para os nossos descendentes”.

Resumo do capítulo no site da editora: link

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