Saberes tradicionais, rituais, alimentação, cuidado com a terra e manutenção de um alimento que representa sabedoria e espiritualidade. Quem deseja conhecer mais sobre como o milho - considerado sagrado pelo povo indígena Guarani - se relaciona com todos esses elementos, tem a oportunidade de participar de uma roda de conversa na UFFS – Campus Chapecó.
Na sexta-feira (15) acontece a roda de conversa “Jornada Karuguá: o cultivo do milho sagrado do povo Guarani”. A atividade, com certificação de quatro horas de ACC, ocorre às 13h30, no auditório do Bloco B, e reúne diferentes perspectivas sobre o significado cultural, espiritual e social do milho para os povos originários.
A iniciativa integra ações de extensão vinculadas à saúde coletiva e à agroecologia. Para a professora Maria Eneida de Almeida, organizadora do evento, a proposta vai além de uma atividade pontual e se insere em um esforço de aproximar o conhecimento acadêmico dos saberes tradicionais.
Segundo ela, a transdisciplinaridade permite articular diferentes formas de conhecimento, incluindo o saber ancestral, muitas vezes afastado dos espaços universitários. Nesse sentido, a professora aponta que a roda de conversa representa uma oportunidade de ampliar o olhar da comunidade acadêmica sobre práticas culturais que dialogam diretamente com questões contemporâneas, como saúde, meio ambiente e modos de vida.
A convidada principal, Rosa Cristina Bolzani, guardiã do ritual do cultivo do milho sagrado do povo Guarani, trará ao público a trajetória da Jornada Karuguá, um movimento criado em Chapecó há mais de duas décadas com o objetivo de preservar sementes tradicionais e manter viva uma prática ancestral.
A história do movimento começa no final da década de 1990, a partir do contato de Rosa com comunidades Guarani no Paraná. Foi nesse contexto que ela recebeu sementes do milho sagrado, o avatí eté, e a responsabilidade de cuidar e dar continuidade ao seu cultivo. Atravessando mais de 25 anos de história, o plantio tem sido realizado de forma contínua desde então.
Segundo Rosa, o milho sagrado carrega um significado profundo para o povo Guarani. “Ele está associado à espiritualidade, à proteção e à própria ideia de vida em comunidade. Muito mais que um alimento, ele é uma forma de sabedoria e espiritualidade”, ressalta ela.
A Jornada Karuguá, um sincretismo, nasce justamente dessa compreensão. Inspirado em diversas experiências, especialmente as vividas junto a comunidades indígenas, o movimento foi estruturado como um espaço de cultivo, celebração e compartilhamento de saberes. Com a incorporação de práticas que dialogam com diferentes tradições espirituais, a jornada busca fortalecer valores como cuidado, respeito à natureza e cultura de paz.
Ao longo dos anos, as sementes foram preservadas e multiplicadas, mantendo sua origem ligada à tradição Guarani. O ritual envolve diferentes etapas que acompanham o ciclo natural do milho, desde o plantio até a colheita, realizado em momentos diferentes, de acordo com as estações do ano. Esses momentos são marcados por encontros coletivos, cantos, rezas e práticas simbólicas que reforçam a relação com a terra. Em alguns contextos, o cultivo ocorre em formatos como mandalas ou sistemas agroecológicos, integrando também princípios de sustentabilidade. Para Rosa, o sentido mais profundo dessa prática está na reconexão com a natureza. “A jornada é um movimento para cultivar a nossa conexão com a Mãe Terra e entender que existe uma unidade entre nós e a natureza”, afirma.
Rosa explica que, dentro da tradição Guarani, a celebração do milho também está ligada a rituais comunitários que envolvem todas as gerações, especialmente as crianças, que ocupam papel central na continuidade cultural. Durante a colheita, há momentos de celebração que incluem cantos, apresentações e rituais de batismo, reforçando a importância do milho como elemento de identidade e pertencimento.
Outro aspecto que atravessa a Jornada Karuguá é a dimensão coletiva e solidária. Como explica ela, ao longo dos anos, o movimento também se organizou para apoiar comunidades indígenas da região, especialmente em momentos de maior vulnerabilidade, como durante a pandemia. A iniciativa contribuiu com a doação de alimentos e, em situações específicas, com a retomada do cultivo do milho sagrado em aldeias que haviam perdido suas sementes. Essa continuidade, segundo Rosa, também representa um compromisso com o futuro. “Manter essas sementes vivas é manter viva uma forma de existir em harmonia com a terra”, destaca ela.
A roda de conversa também contará com a participação da nutricionista indígena Cleusa Rodrigues, ampliando o debate sobre a relação entre alimentação, saúde e cultura. Para a professora Maria Eneida, que organiza o evento, o encontro representa uma oportunidade de escuta e aprendizado que vai além do ritual: será sobre formas de pensar o mundo a partir de outras referências.
A atividade é aberta ao público, e a inscrição para certificação será realizada no local, no horário do evento.